Introdução.
Uma nomenclatura padronizada permite uma comunicação clara e segura entre profissionais, previne erros em diagnósticos e tratamentos, garante registros clínicos e legais consistentes, facilita o ensino e a troca precisa de informações em saúde, e aprimora o consentimento informado do paciente. Nesse contexto, a periodontia passou por transformações conceituais significativas nas últimas décadas, especialmente na forma como o preparo subgengival é abordado. Tradicionalmente, o termo “raspagem e alisamento radicular” (RAR) descrevia a remoção mecânica de cálculo e cemento radicular considerado “infectado”(1). Estudos, como o de Adriaens et al. (1988), demonstraram que, em casos de periodontite avançada, bactérias podem invadir o cemento e até a dentina radicular, especialmente em áreas onde o cemento está necrosado, desgastado ou reabsorvido. Essa constatação sustentava a prática clínica da raspagem e alisamento radicular severos, para expor uma superfície dentinária "limpa" e biologicamente compatível para o reestabelecimento da conexão tecidual(2). Essa terminologia estava baseada na crença de que a infecção penetrava profundamente no cemento radicular e, portanto, sua remoção era necessária. Contudo, evidências científicas posteriores questionaram essa abordagem invasiva, propondo a substituição por “desbridamento radicular”(DR) ou “desbridamento periodontal” (DP), técnica que visa a remoção seletiva do biofilme e cálculo, com mínima perda de estrutura dentária.
Fundamentos científicos para a mudança de nomenclatura
A remoção deliberada do tecido dentário durante o procedimento de RAR, a fim de obter saúde periodontal, começou a ser questionada a partir da década de 1980 quando estudos evidenciaram que o biofilme bacteriano é superficial e pode ser removido com instrumentação leve, sem necessidade de alisamento severo da raiz(3-5). Esses achados levaram a profundas implicações clínicas no desenvolvimento do conceito de desbridamento radicular, com o objetivo principal de preservar a integridade da superfície dental enquanto se elimina o agente etiológico principal: o biofilme subgengival. Essa mudança baseia-se na compreensão de que o cemento radicular é excepcionalmente invadido por microrganismos de forma significativa, e que sua remoção pode ser iatrogênica, causando sensibilidade e perda desnecessária de estrutura dentária. Embora o cemento seja difícil de preservar durante a remoção do cálculo, sua eliminação não é necessária para alcançar um bom resultado terapêutico.
Aspectos técnicos do desbridamento radicular.
O desbridamento radicular caracteriza-se pela aplicação de instrumentação delicada e controlada, utilizando-se curetas manuais e/ou insertos ultrassônicos finos, regulados para potências baixa a moderada, associados a leve pressão e movimentos sobrepostos, paralelos à superfície radicular. Essa técnica visa preservar ao máximo o cemento radicular, reduzindo a remoção excessiva de tecido dentário e minimizando danos mecânicos à raiz. A instrumentação ultrassônica, embora proporcione maior eficiência operatória, tende a produzir uma superfície radicular relativamente mais rugosa. Já a utilização de curetas manuais está associada à obtenção de uma superfície radicular mais regular(6). Estudos corroboram que os resultados clínicos relacionados à redução da profundidade de sondagem e ao ganho de inserção clínica são comparáveis tanto com o uso de instrumentos manuais quanto com dispositivos ultrassônicos, desde que a instrumentação seja realizada de forma adequada(7-11). As evidências apontam que a principal variável associada à eficácia do desbridamento radicular é a remoção eficiente do biofilme subgengival, e não a extensão da remoção de tecido dental.
Justificativa conceitual e implicações clínicas.
A substituição do termo RAR por DR ou DP não é somente semântica, mas reflete uma reorientação conceitual nas estratégias de tratamento periodontal. O termo “alisamento” quer dizer: ato ou efeito de tornar algo liso, plano ou suave, isto implica em polimento extensivo da raiz, remoção de tecido radicular, o que hoje se sabe ser desnecessário e potencialmente prejudicial. Por outro lado, o termo, “desbridamento” trata-se da remoção de tecidos não viáveis, como necroses, material desvitalizado e corpos estranhos, os quais comprometem a cicatrização ao prolongar a fase inflamatória, favorecer a proliferação bacteriana, inibir a fagocitose e impedir a granulação e epitelização por atuarem como barreira física. No contexto da literatura técnico-científica em língua portuguesa, o termo correto é "desbridamento", conforme registrado em vocabulários oficiais como o VOLP da Academia Brasileira de Letras. A forma "debridamento" trata-se de um anglicismo indevido, oriundo do inglês "debridement", e não deve ser utilizada em textos acadêmicos formais. Esse termo foi incorporado à periodontia para designar a eliminação seletiva de substâncias nocivas, como o biofilme microbiano e o cálculo dentário, com a preservação dos tecidos periodontais saudáveis. (12). Essa terminologia alinha a prática periodontal aos princípios dos procedimentos minimamente invasivos(13), propiciando intervenções menos traumáticas, mais confortáveis na percepção do paciente e, muitas vezes, com demanda reduzida por anestesia local.
Atualizações em diretrizes clínicas e educação.
Organizações como a American Academy of Periodontology, European Federation of Periodontology e a American Dental Association, já utilizam o termo “periodontal debridement” como sinônimo de terapia mecânica básica para doenças inflamatórias periodontais, reforçando a necessidade de atualização da terminologia entre os profissionais. Na educação odontológica, é fundamental que o ensino acompanhe essa evolução, incluindo a nomenclatura correta nas disciplinas clínicas e teóricas, e estimule a análise crítica da fundamentação científica por trás das escolhas terapêuticas. A formação continuada de profissionais em atividade também deve contemplar essa atualização, garantindo a adoção de práticas baseadas em evidências. No entanto, o termo “raspagem e alisamento radicular” (RAR) é frequente e inadequadamente utilizado como sinônimo de desbridamento periodontal(DP). Haja vista que a eficácia e a longa trajetória de utilização consolidada da RAR permitiram que programas educacionais e protocolos clínicos se desenvolvessem em torno dela, justificando a dificuldade em aceitar novas perspectivas.
Conclusão
A transição do conceito de raspagem e alisamento radicular (RAR) para desbridamento radicular (DR) ou desbridamento periodontal (DP) representa não somente uma mudança semântica, mas uma reformulação conceitual baseada em fortes evidências científicas. Essa abordagem prioriza a preservação tecidual, o controle do biofilme e a redução da agressividade mecânica sobre os tecidos periodontais. Nesse paradigma, as curetas manuais permanecem como instrumentos fundamentais, mas seu modo de aplicação é significativamente refinado e indispensável. Ao contrário do que ocorria na RAR onde a instrumentação visava alisar intensamente a superfície radicular com força considerável. No desbridamento, o uso das curetas vai receber movimentos mais discretos, controlados e direcionados, objetivando a remoção seletiva do biofilme e dos depósitos contaminados, sem comprometer deliberadamente o cemento radicular saudável. Essa mudança favorece e melhora a previsibilidade clínica dos resultados. Assim, as curetas não apenas permanecem integradas ao arsenal terapêutico, como também reafirmam sua prioridade e relevância no tratamento periodontal, sendo aplicadas de maneira criteriosa e ética.
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Orlando Cavezzi Junior
