Doença Periodontal e Ortodontia: Caminhos Seguros para a Intervenção

 


A periodontite em estágio avançado, especialmente aquela classificada como estágio IV segundo a Classificação doenças e condições periodontais e peri-implantares de 2017, constitui um quadro clínico de elevada complexidade, com repercussões funcionais, estéticas e sistêmicas significativas [1,2]. Nessa fase, observa-se destruição extensa e irreversível do aparelho de suporte periodontal, caracterizada por perda acentuada de inserção clínica e reabsorção óssea generalizada, frequentemente acompanhada de sinais de instabilidade dentária, tais como mobilidade patológica, migração dentária induzida por forças oclusais descompensadas, espaçamento anterior por migração patológica, extrusões dentárias e alterações oclusais progressivas.

Tais manifestações refletem não apenas a gravidade do processo inflamatório crônico, mediado por microbiota subgengival disbiótica e pela resposta imune do hospedeiro, mas também o colapso funcional do sistema mastigatório, resultando em prejuízos à mastigação, fonação e estética — fatores que impactam diretamente a qualidade de vida e o bem-estar psicossocial dos pacientes.

Diante desse cenário, abordagens terapêuticas convencionais mostram-se frequentemente insuficientes, demandando planejamento reabilitador minucioso e de natureza inerentemente interdisciplinar. A integração entre periodontia, prótese fixa e removível, implantodontia, ortodontia e cirurgia oral torna-se essencial para estabilizar o quadro periodontal, restaurar a função mastigatória e assegurar a longevidade dos resultados clínicos. Assim, o manejo da periodontite em estágio IV transcende o controle localizado da infecção, assumindo caráter sistêmico e personalizado, fundamentado em evidências científicas e centrado no paciente.

Historicamente, o tratamento ortodôntico em pacientes com comprometimento periodontal foi considerado de alto risco, sobretudo devido à possibilidade de agravamento da perda óssea e à limitação de suporte para movimentações dentárias seguras. No entanto, os avanços em protocolos clínicos, na compreensão da biomecânica em periodontos reduzidos e na ancoragem esquelética permitiram reavaliar tais restrições. Quando criteriosamente indicado, o tratamento ortodôntico pode não apenas restaurar a estética e a função oclusal, como também favorecer o prognóstico dos dentes remanescentes [3,4].

Nesse contexto, estabelecem-se critérios clínicos e biológicos que justificam intervenções ortodônticas em pacientes com sequelas de doença periodontal, destacando o momento ideal da abordagem, as estratégias terapêuticas viáveis e suas limitações, com base nas evidências científicas atuais.

O ponto de partida para qualquer intervenção ortodôntica nesse perfil de paciente é o controle completo da inflamação. Essa etapa é não apenas inicial, mas decisiva: sem controle inflamatório, a movimentação dentária pode intensificar a perda óssea, comprometer o suporte periodontal e reduzir a previsibilidade clínica. Por esse motivo, recomenda-se iniciar o tratamento ortodôntico somente após a conclusão da terapia periodontal ativa e a obtenção de estabilidade clínica, caracterizada por ausência de sangramento à sondagem, redução da profundidade de sondagem e boa adesão ao protocolo de manutenção periodontal [5,6].

Dessa maneira, qualquer plano ortodôntico deve ser conduzido sob abordagem interdisciplinar rigorosa, com acompanhamento conjunto entre periodontista, ortodontista e profissional de higiene oral. O momento de início da movimentação dentária, a magnitude das forças aplicadas e a seleção das mecânicas devem ser cuidadosamente individualizados, conforme o grau de comprometimento periodontal e a resposta à terapia inicial.

Além da estabilidade clínica, o planejamento ortodôntico deve considerar a cronologia e o sequenciamento dos procedimentos. Evidências recentes indicam que, em determinadas situações, a movimentação ortodôntica pode preceder intervenções regenerativas, visando otimizar o posicionamento dentário e criar condições mais favoráveis à regeneração óssea ou ao planejamento protético subsequente. Por outro lado, em casos de defeitos intraósseos profundos ou comprometimento severo do suporte periodontal, a abordagem regenerativa deve preceder a ortodontia, garantindo estabilidade biológica para a aplicação de forças ortodônticas. A definição da sequência ideal exige avaliação interdisciplinar criteriosa, baseada em dados clínicos, radiográficos e funcionais, de modo a individualizar a conduta conforme a complexidade do caso [7].

Do ponto de vista biomecânico, pacientes com periodonto reduzido requerem forças ortodônticas mais leves e altamente controladas. A literatura destaca que o risco de reabsorções radiculares e danos ao ligamento periodontal pode ser significativamente reduzido por movimentações lentas e bem planejadas. A ancoragem esquelética — mediante mini-implantes ou miniplacas — tem se consolidado como recurso eficaz para garantir controle dos movimentos sem sobrecarregar dentes adjacentes, por vezes com suporte comprometido [3,8]. Movimentos de intrusão, antes contraindicados, são atualmente considerados viáveis, desde que a inflamação esteja controlada e a força aplicada seja compatível com a resistência dos tecidos remanescentes. Revisões sistemáticas recentes demonstram que, mesmo em pacientes com perdas ósseas verticais acentuadas, a intrusão controlada pode contribuir para o reposicionamento funcional de dentes extruídos, melhorar a oclusão e viabilizar reabilitação protética posterior [4,9].

Outro ponto essencial é o monitoramento constante durante o tratamento ortodôntico. A manutenção periodontal deve ser conduzida em paralelo, com consultas frequentes, higienização profissional e reeducação em higiene oral. Essa abordagem reduz o risco de reativação da doença e garante que o tratamento ortodôntico ocorra em ambiente biológico estável. A comunicação efetiva entre ortodontista e periodontista é vital para ajustes terapêuticos conforme a resposta clínica do paciente [6,10].

Após a fase ativa de movimentação dentária, a contenção deve ser estrategicamente planejada. Pacientes com histórico de periodontite apresentam risco aumentado de recidiva, sendo recomendável o uso de contenções fixas passivas, aliadas à vigilância clínica contínua. A seleção de materiais e sua adaptação devem considerar não apenas a estabilidade ortodôntica, mas também a viabilidade de higienização, em função das limitações anatômicas decorrentes da perda óssea [2,8].

Embora os avanços sejam notáveis, a ortodontia em pacientes com sequelas periodontais ainda enfrenta limitações evidentes. Casos com suporte ósseo residual crítico, mobilidade dentária severa ou baixa adesão ao controle de placa representam contraindicações relativas à ortodontia convencional. Nessas situações, as estratégias devem ser reavaliadas, priorizando a estabilização periodontal e alternativas reabilitadoras com menor risco biomecânico [1,10].

À luz das evidências atuais, é inequívoco que a condução ortodôntica em pacientes com histórico de doença periodontal exige planejamento terapêutico altamente criterioso, sustentado por abordagem interdisciplinar e por avaliação rigorosa de parâmetros clínicos, radiográficos e biológicos. A estabilidade periodontal prévia à movimentação, a aplicação de forças compatíveis com o estado do periodonto e a manutenção do controle inflamatório durante todo o tratamento configuram premissas fundamentais para a previsibilidade dos resultados e para a longevidade dos efeitos terapêuticos. Nesse cenário, a integração entre ortodontia e periodontia constitui não apenas uma estratégia complementar, mas uma condição indispensável para a reabilitação funcional e estética em casos clínicos de alta complexidade.

 

Referências Bibliográficas

 

1.            Alsulaimani L, Alqarni H, Akel M, Khalifa F, Akel MS. The orthodontics-periodontics challenges in integrated treatment: a comprehensive review. Clin Cosmet Investig Dent. 2023;15(5).

2.            Garbo D, Aimetti M, Bongiovanni L, Vidotto C, Mariani GM, Baima G, et al. Periodontal and orthodontic synergy in the management of stage IV periodontitis: challenges, indications and limits. J Clin Med. 2022;12(12):2131.

3.            Viglianisi G, Polizzi A, Lombardi T, Amato M, Grippaudo C, Isola G. Biomechanical and Biological Multidisciplinary Strategies in the Orthodontic Treatment of Patients with Periodontal Diseases: A Review of the Literature. Biomedicines. 2025;12(1):49.

4.            Camelin F, Saade A, El Helou M. To intrude or not to intrude? A systematic review of the controversy surrounding orthodontic intrusion on reduced periodontium. Int Orthod. 2024;22(1):100841.

5.            Erbe C, Heger S, Kasaj A, Berres M, Wehrbein H. Orthodontic treatment in periodontally compromised patients: a systematic review. Curr Oral Health Rep. 2023;27(1):79-89.

6.            Aimetti M, Garbo D, Vidotto C, Bongiovanni L, Citterio F, Mariani GM, et al. Combined periodontal and orthodontic treatment of severely compromised teeth in stage IV periodontitis patients: how far can we go? J Clin Periodontol. 2022;42(6).

7.            Tu K-W, Kuo C-H, Hung C-C, Yan D-Y, Mau JL. Strategic sequencing of orthodontic treatment and periodontal regenerative surgery: A literature review. J Dent Sci. 2025.

8.            Antonarakis GS, Zekeridou A, Kiliaridis S, Giannopoulou C. Periodontal considerations during orthodontic intrusion and extrusion in healthy and reduced periodontium. J Clin Periodontol. 2024.

9.            Martin C, Sanz M. Orthodontic tooth movement after periodontal regeneration of intrabony defects. Korean J Orthod. 2024;54(1):3–15.

10.         Hashim NT, Dasnadi SP, Ziada H, Rahman MM, Ahmed A, Mohammed R, et al. Orthodontic Management of Different Stages and Grades of Periodontitis According to the 2017 Classification of Periodontal Diseases. Clin Adv Periodontics. 2025;13(2):59.

                                                                                                                                                                                                                                                      Orlando Cavezzi Junior 

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