A reavaliação da terapia periodontal não cirúrgica (TPNC) constitui etapa fundamental para mensurar a resposta clínica do paciente ao tratamento inicial e orientar a necessidade de intervenções subsequentes. Entretanto, o intervalo ideal para sua realização ainda é motivo de debate na literatura, uma vez que diferentes estudos e diretrizes propõem prazos distintos, variando, em geral, entre 4 e 12 semanas após a fase inicial da terapia(1). A definição precisa desse momento mostra-se de grande relevância, uma vez que influencia diretamente a identificação de áreas com resposta insatisfatória, a prevenção da progressão da doença e a tomada de decisão quanto à indicação de retratamento ou encaminhamento para abordagem cirúrgica(2, 3). As diretrizes atuais da Federação Europeia de Periodontologia (EFP) defendem uma abordagem estratificada em fases, na qual a reavaliação é um componente essencial para a tomada de decisões clínicas subsequentes, garantindo a individualização do tratamento com base em evidências robustas(4).
Na fase inicial pós-TPNC, a literatura científica aponta que a regeneração do epitélio leva de uma a duas semanas e que avaliações clínicas antes desse período seriam prematuras, pois o tecido epitelial ainda não teria se restabelecido adequadamente. Conforme destacado por Kalsi et al., parâmetros clínicos como sangramento à sondagem, eritema gengival e edema apresentam redução progressiva ao longo das primeiras 4 a 8 semanas subsequentes à TPNC, evidenciando uma evolução favorável na resposta tecidual ao tratamento(5). De maneira semelhante, Cobb e Sottosanti recomendam um agendamento de reavaliação entre 6 e 8 semanas após a conclusão da TPNC, a fim de assegurar a remoção eficaz de cálculo residual e biofilme microbiano, bem como monitorar a resposta tecidual ao tratamento(6). Por outro lado, Segelnick e Weinberg alertam para o risco de um intervalo excessivamente prolongado, como dois meses ou mais, entre o término da terapia inicial e a reavaliação clínica, o que pode favorecer a rápida repopulação da microbiota subgengival patogênica, potencialmente resultando na progressão da doença periodontal e em perda tecidual desnecessária(1).
O intervalo de 3 a 6 meses tem sido adotado na prática clínica como momento apropriado para a reavaliação pós-TPNC. Em uma revisão sistemática recente, foram analisados dados de acompanhamento coletados nos intervalos de 1–2, 3–4 e 5–6 meses, evidenciando que, embora a maior parte da redução da profundidade de sondagem ocorra nas primeiras 6 a 8 semanas, uma melhora adicional clinicamente significativa se desenvolve até o terceiro ou quarto mês. Com base nesses achados, os autores recomendam que a reavaliação seja realizada após um período mínimo de 3 a 4 meses, a fim de permitir a estabilização da resposta tecidual e prevenir uma avaliação subestimada e prematura do desfecho clínico do tratamento(7). O protocolo GPIC (*Guided Periodontal Infection Control*), avaliado por alguns autores, incluiu reavaliação clínica aos três meses com retratamento restrito a sítios residuais, e desfechos clínicos finais aferidos aos seis meses(8, 9). De modo distinto, Liss et al. realizaram a reinstrumentação de sítios com bolsas residuais após a reavaliação aos 6 meses. A avaliação final, conduzida aos 18 meses, demonstrou estabilidade dos desfechos clínicos em longo prazo (10). Suvan et al. destacam que os ensaios clínicos randomizados incluídos em sua revisão sistemática raramente ultrapassaram o período de 6 meses de acompanhamento, limitando a avaliação da estabilidade dos desfechos clínicos em longo prazo(11).
Para defeitos infraósseos, Nibali e Cortellini propõem uma revisão inovadora e instigante sobre o papel da TPNC no tratamento de defeitos infraósseos, desafiando o paradigma tradicional de que mudanças morfológicas ósseas significativas só ocorrem com cirurgia regenerativa e sugerem que a primeira reavaliação pode ser realizada aos 6 meses, em vez dos 3 meses usuais, especialmente na ausência de sinais claros de inflamação marginal, supuração ou desconforto do paciente(12). Isso contrasta com protocolos que reavaliam aos 3 meses. Na revisão sistemática de Citterio et al., foram incluídos estudos prospectivos com seguimento mínimo de 12 meses após a TPNC, uma vez que a melhora clínica tende a se estender por até 9–12 meses. A eficácia foi avaliada pelo fechamento de bolsa (sítios com profundidade de sondagem [PS] ≤ 3–4 mm) e pela variação na proporção/número de sítios em diferentes limiares (≥ 5, ≥ 6 e ≥ 7 mm). Os resultados evidenciaram aumento significativo na proporção de sítios saudáveis e redução de bolsas ≥ 5 mm após 12 meses; entretanto, bolsas residuais, especialmente aquelas com PS ≥ 6 mm, persistem em número considerável, podendo indicar necessidade de terapias adicionais e/ou intervalos mais curtos de manutenção no tratamento periodontal de suporte (TPS)(2). Além disso, Herz et al. evidenciaram que a reavaliação dentro de até 1 ano após a fase ativa da TPNC configura uma janela temporal crítica para o sucesso do tratamento, pois é nesse momento que podem ser identificadas bolsas residuais, principais preditores de progressão da doença. Ao longo de cerca de 9 anos de manutenção, os autores observaram que a presença dessas bolsas, associada à mobilidade dentária e ao envolvimento de furca distopalatina, esteve diretamente relacionada ao aumento da profundidade de sondagem, reforçando que o monitoramento rigoroso e a intervenção precoce nesses sítios são fundamentais para evitar a deterioração periodontal em longo prazo(3). Se por um lado, Cuozzo et al. ressaltam que a reavaliação após três meses de TPNC é adequada para monitorar a resposta inicial, por outro, reconhecem que a cicatrização completa, sobretudo em defeitos infraósseos, possa exigir até oito meses. Enquanto bolsas supraósseas apresentam fechamento mais precoce, as infraósseas demandam acompanhamento prolongado, reforçando a importância de alinhar o momento da reavaliação ao tempo biológico de reparo tecidual(13). Tomasi et al. demonstraram que fumo, tipo dentário e acúmulo de placa no sítio afetam de forma significativa os resultados da TPNC(8, 9). De forma complementar, há autores que apontam que profissionais mais experientes tendem a dedicar maior tempo à higiene oral e à instrumentação inicial, o que impacta a resposta clínica e pode alterar o momento ideal da reavaliação(14). Tais achados reforçam a importância de abordagens individualizadas, na tomada de decisão, nas quais o intervalo de reavaliação seja ajustado às características e necessidades específicas de cada paciente. TABELA 1
Tabela 1 - Intervalos sugeridos para reavaliação da TPNC: fundamentos, vantagens e limitações
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Intervalo sugerido |
Fundamentação principal |
Vantagens |
Limitações/Riscos |
Referências |
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1–2 semanas |
Reparo inicial do epitélio |
Identificação precoce de complicações |
Avaliação clínica prematura, epitélio imaturo |
(5) |
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4–8 semanas |
Redução de edema, sangramento e eritema |
Monitoramento precoce da resposta tecidual |
Risco de repopulação bacteriana se > 8 semanas |
(5, 6, 1) |
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3–4 meses |
Consolidação da cicatrização e ganhos adicionais de profundidade de sondagem |
Estabilização clínica; menor risco de subestimar resultados |
Pode ser tardio em casos refratários |
(7, 8, 9) |
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6 meses |
Protocolos de reinstrumentação e cicatrização de defeitos infraósseos |
Monitoramento prolongado e estabilidade |
Risco de atraso em intervenções necessárias |
(10, 12, 13) |
|
9–12 meses |
Extensão da resposta clínica e identificação de bolsas residuais |
Evidencia desfechos de longo prazo |
Bolsas profundas podem persistir sem intervenção |
(2, 3) |
Em suma, a reavaliação após a TPNC é etapa essencial para verificar a resposta clínica, identificar bolsas residuais e orientar a necessidade de retratamento ou intervenção cirúrgica. Embora existam diferentes propostas quanto ao intervalo ideal, a evidência demonstra que a cicatrização inicial ocorre nas primeiras semanas, enquanto a estabilização clínica se consolida entre três e seis meses. Defeitos supraósseos tendem a apresentar fechamento mais precoce, ao passo que defeitos infraósseos demandam acompanhamento prolongado. Além disso, fatores individuais, como tabagismo, tipo dentário, presença de placa e experiência clínica do profissional, exercem influência direta sobre os resultados. Em síntese, a definição do momento adequado para a reavaliação deve ser individualizada, equilibrando o tempo biológico dos processos de cicatrização tecidual com as características e necessidades específicas de cada paciente.
Referências Bibliográficas
1. Segelnick SL, Weinberg MA. Reevaluation of initial therapy: when is the appropriate time? Journal of periodontology 2006;77(9):1598-601.
2. Citterio F, Gualini G, Chang M, Piccoli GM, Giraudi M, Manavella V, et al. Pocket closure and residual pockets after non‐surgical periodontal therapy: A systematic review and meta‐analysis. Journal of clinical periodontology 2022;49(1):2-14.
3. Herz MM, Hoffmann N, Braun S, Lachmann S, Bartha V, Petsos H. Periodontal pockets: Predictors for site‐related worsening after non‐surgical therapy—A long‐term retrospective cohort study. Journal of Clinical Periodontology 2024;51(6):680-90.
4. Sanz M, Herrera D, Kebschull M, Chapple I, Jepsen S, Berglundh T, et al. Treatment of stage I–III periodontitis—The EFP S3 level clinical practice guideline. Journal of Clinical Periodontology. 2020; 47:4-60.
5. Kalsi AS, Bomfim DI, Hussain Z. Factors affecting decision making at reassessment of periodontitis. Part 1: history and examination at reassessment. British Dental Journal 2019;227(8):673-80.
6. Cobb CM, Sottosanti JS. A re‐evaluation of scaling and root planing. Journal of Periodontology 2021;92(10):1370-8.
7. Paternò Holtzman L, Valente NA, Vittorini Orgeas G, Copes L, Discepoli N, Clementini M. Change in clinical parameters after subgingival instrumentation for the treatment of periodontitis and timing of periodontal re‐evaluation: A systematic review and meta‐analysis. Journal of Clinical Periodontology. 2025;52(1):137-58.
8. Tomasi C, Liss A, Welander M, Alian AY, Abrahamsson KH, Wennström JL. A randomized multi‐centre study on the effectiveness of non‐surgical periodontal therapy in general practice. Journal of Clinical Periodontology. 2022;49(11):1092-105.
9. Tomasi C, Abrahamsson KH, Apatzidou D. Subgingival instrumentation. J Periodontology 2023; 00:1-13.
10. Liss A, Abrahamsson KH, Welander M, Tomasi C. Effectiveness of nonsurgical re‐instrumentation of residual pockets as step 3 of periodontal therapy: A field study. Journal of Periodontology 2025:1-11.
11. Suvan J, Leira Y, Moreno Sancho FM, Graziani F, Derks J, Tomasi C. Subgingival instrumentation for treatment of periodontitis. A systematic review. Journal of Clinical Periodontology. 2020; 47:155-75.
12. Nibali L, Cortellini P. Changes in Osseous Morphology Following Non‐Surgical Periodontal Therapy: A Possible Paradigm Shift for the Treatment of Intrabony Defects? Journal of Clinical Periodontology. 2025;52(6):836-42.
13. Cuozzo A, Arora M, Marini L, Hurley J, Malaki Z, Kang J, et al. Differential Response to Non‐Surgical Periodontal Therapy Between Intrabony and Suprabony Defects: A Retrospective Analysis. Journal of Clinical Periodontology 2025;52(8):1158 -66.
14. Merli M, Fratini A, Sforza NM, Landi L, Pagliaro U, Franchi L, et al. Clinical decision‐making and management of stage IV periodontitis: A survey. J Oral Diseases 2024;30(2):729-42.
Orlando Cavezzi Junior

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