Os dentes foram planejados para a
vida toda do indivíduo, mas podem ser perdidos pelas mais diversas causas. A
reposição de dentes ausentes é de valor bem estabelecido para a saúde geral bem
como para a saúde dos outros dentes na composição do sistema estomatognático.
Além disso, a ausência de dentes gera transtornos psicossociais que influenciam negativamente na qualidade de
vida do paciente(1).
Os dentes podem ser perdidos por
causas óbvias como fraturas radiculares ou mesmo caries extensas, mas, quando o
argumento é dente com comprometimento por doença periodontal com prognóstico
duvidoso ou questionável, a atenção dada, nestes casos, é pouca ou nenhuma e a
sentença de morte é declarada na maioria das vezes. Por outro lado, a
incorporação dos implantes dentários como modalidade de tratamento veio
revolucionar a prática clínica diária proporcionando uma melhoria da saúde bucal com reflexos na
qualidade de vida dos indivíduos. As altas taxas de previsibilidade que se
obtém com implantes osseointegráveis, pelo conhecimento cientifico de que a
osseointegração é factível e efetiva, leva a um entusiasmo, por parte dos
profissionais, a generalizar uma terapêutica de modelo ideal. Entretanto, isso
deve ser visto com cautela, pois os implantes não são isentos de falhas e
complicações. Estamos assistindo um número excessivo de implantes sendo
colocados indiscriminadamente acompanhados de falhas as mais variadas e
infecções em torno dos implantes gerando grandes desafios terapêuticos.
Assim, a tomada de decisão de
qual dente condenar não é uma tarefa fácil e exige uma avaliação sensata e
racional. Em princípio, muitos dentes após a raspagem e alisamento radicular
sinalizam positivamente e, outros nem tanto, proporcionando uma tomada de
decisão mais ponderada. Desta forma, na
presença de dúvida, a melhor conduta é a manutenção do dente. Isto pode parecer
uma tendência superada atualmente, mas é uma conduta muito mais baseada em
evidências cientificas do que simplesmente substituir o dente pelo implante num
primeiro momento, visto que a longevidade dos dentes com doença periodontal que
tratados e devolvidos à saúde já está muito bem estabelecida na literatura(2-11).
Segundo Jan Lindhe(12),
muitos dentistas acham mais fácil remover um dente e colocar um implante do que
usar os dados na literatura para tratar o dente conforme suas condições. É
lamentável que todo conhecimento baseado em evidências cientificas acumulado na
literatura, para tratar dentes envolvidos com doença periodontal, esteja sendo
subestimado. Isso leva a uma nítida redução na ênfase em salvar dentes
comprometidos periodontalmente.
Estudos(13, 14) apontam que quanto menor o treinamento em
periodontia por parte do profissional, mais frequente é a indicação da
exodontia e isso gera profundas mudanças no modo de abordar os pacientes. Há
clínicos que alegam que dentes comprometidos periodontalmente devem ser
removidos com objetivo de preservar o
volume ósseo para instalação de implantes. Sendo que esta abordagem agressiva
não encontra embasamento na literatura(15).
Portanto, uma tendência que afete a substituição de dentes periodontalmente
comprometidos por implantes não deve ser uma solução definitiva para tratamento
das doenças periodontais.
Para o clínico é um dilema a
tomada de decisão em manter dentes com comprometimento periodontal seja por
carência de treinamento, ou por desconsiderar os dados disponíveis, ou ainda,
por negligência. Considerar somente as taxas de sobrevivências dos dentes para
decidir é insuficiente, pois o
prognóstico do dente depende da extensão e severidade da doença periodontal. Os dentes com
comprometimentos periodontais severos são tratados e mantidos graças ao poder
resolutivo e mantenedor da raspagem e
alisamento corono-radicular (RACR), além de prevenir surtos da doença. A
literatura aponta que esses elementos prestam-se a pilares de estruturas extensas de próteses
fixas com prognósticos satisfatórios a longo prazo(16, 17).
O desafio torna-se maior quando são
dentes envolvidos com lesões de furca, o que afeta consideravelmente a tomada
de decisão pelos clínicos em manter o dente. A opção, na maioria das vezes, é
pela exodontia, apesar das evidências demonstrarem resultados muito positivos
de sobrevivência a longo prazo(11, 18, 19).
Outros pontos a considerar na tomada de decisão são os fatores de risco que
influenciam na longevidade da dentição natural, a disponibilidade tecidual, as
expectativas, a cooperação e controle de biofilme por parte do paciente, a
complexidade e custos do tratamento, assim como a localização estratégica do
dente, sua função e estética no arco dentário, considerando fatores protéticos, endodônticos e a experiência do profissional (20).
Assim o desafio que envolve o
processo de tomada de decisão deve sempre estar pautado em evidências
cientificas. Há de considerar um aspecto que, atualmente, pesa muito contra a
manutenção de dentes e a favor do implante dentário que é a demanda induzida
pelo mercado e indústria de implantes que investem consideravelmente. Além
disso, é importante ter em mente que, na terapia com implantes, as taxas de
sobrevida podem ser tranquilizadoras, mas a probabilidade de complicações é
frequentemente observada(21-23).
Isso leva a uma reflexão sobre os dentes, comprometidos periodontalmente, possuir uma longevidade acentuada a dos
implantes (24, 25).
Atualmente, cada vez mais, a odontologia baseada em
evidências se faz presente como base para decisões clínicas e o importante é
perceber que nenhuma estratégia de tratamento é uma panacéia para todos os
males. Assim, o implante dentário é uma modalidade de tratamento
desenvolvido para casos onde a permanência do dente, não é mais possível e não
para substituir a dentição natural
indiscriminadamente.
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Orlando Cavezzi Junior

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