Estresse Oxidativo: Um elo biológico subestimado na patogênese da periodontite

 


 

 

 

A periodontite é uma condição inflamatória crônica de alta prevalência global que, quando não tratada, provoca a destruição progressiva dos tecidos de sustentação dentária. Sua patogênese resulta de uma interação complexa entre a microbiota subgengival e a resposta imune do hospedeiro (1). Nesse contexto, o estresse oxidativo destaca-se como um elemento crucial na progressão e agravamento da doença. Essa condição caracteriza-se por um desequilíbrio entre a produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (EROs) e a capacidade antioxidante do organismo, resultando em danos celulares e teciduais. Esse fenômeno promove a peroxidação lipídica e a oxidação proteica, processos que intensificam a resposta inflamatória local e aceleram a destruição dos tecidos de suporte periodontal (2). Embora as EROs sejam essenciais para processos fisiológicos, como sinalização celular e defesa imune, sua produção excessiva ou a falha dos mecanismos antioxidantes as torna prejudiciais (3). Na periodontite, a inflamação crônica e a presença de patógenos periodontais estimulam a produção de EROs por células imunes, como os neutrófilos, causando danos oxidativos a lipídios, proteínas e ao DNA dos tecidos periodontais (4). Esse quadro contribui não apenas para a destruição tecidual local, mas também possui implicações sistêmicas, associando a periodontite a outras condições de saúde (5). Com base em onze referências, esta análise crítica explora o papel do estresse oxidativo na periodontite, destacando consensos, divergências e lacunas na literatura, além de sugerir direções para futuras pesquisas e prática clínica.

O estudo dos biomarcadores de estresse oxidativo na periodontite é fundamental para compreensão dos eventos moleculares subjacentes à patogênese da doença. A literatura científica converge na identificação de produtos da peroxidação lipídica, danos ao material genético e modificações proteicas como indicadores relevantes da atividade oxidativa. O malondialdeído (MDA), produto final da peroxidação lipídica, é consistentemente reconhecido como biomarcador elevado em indivíduos com periodontite. Meta-análises comprovam o aumento significativo dos níveis sistêmicos de MDA em pacientes com periodontite crônica, quando comparados a indivíduos saudáveis (1, 2), evidenciando o acúmulo de danos oxidativos às membranas celulares. O MDA funciona tanto como marcador sistêmico quanto local, com elevações detectáveis no fluido crevicular gengival (FCG) e na saliva (6, 7). A relevância clínica do MDA é reforçada por evidências que o associam diretamente à progressão do dano periodontal, já que a terapia periodontal inicial promove redução significativa em seus níveis no FCG (5).

Além do MDA, outros produtos da peroxidação lipídica, como o 4-hidroxinonenal (HNE) e os isoprostanos, também estão associados à periodontite. Embora as evidências sobre o HNE sejam ainda limitadas, alguns estudos registram concentrações elevadas desse biomarcador em pacientes, especialmente fumantes. Os isoprostanos são reconhecidos como indicadores robustos de estresse oxidativo, apresentando níveis elevados em saliva e FCG que se correlacionam positivamente com a severidade da doença (6). Contudo, a literatura permanece heterogênea quanto à redução desses biomarcadores após a terapia, o que demanda investigações adicionais.

O dano oxidativo ao DNA, avaliado principalmente pelo biomarcador 8-hidroxideoxiguanosina (8-OHdG), também é um aspecto central. Um estudo recente observou concentrações salivares de 8-OHdG significativamente elevadas em indivíduos com periodontite em estágio III, com correlação positiva à severidade clínica (8). Outros estudos descreveram resultados semelhantes no FCG e na saliva, com redução do biomarcador após a terapia periodontal. No entanto, não foram identificadas diferenças significativas nos níveis séricos de 8-OHdG, sugerindo que o dano ao DNA é um evento predominantemente localizado nos tecidos periodontais, com repercussões sistêmicas menos evidentes (8).

O dano às proteínas, avaliado por biomarcadores como os grupos carbonila proteicos (CP) e os produtos de oxidação proteica avançada (POPA), é outro componente importante. A elevação dos níveis de CP está associada a maior comprometimento periodontal (6), enquanto os POPA apresentam correlação inconsistente com a gravidade da doença (6, 7). Além disso, há aumento concomitante de marcadores pró-inflamatórios e de estresse oxidativo em pacientes com periodontite, reforçando a estreita conexão entre inflamação e processos oxidativos (9). A análise integrada desses biomarcadores demonstra a complexidade do estresse oxidativo na periodontite, onde a agressão molecular atinge múltiplos componentes celulares e contribui para a destruição do periodonto.

O desequilíbrio redox na periodontite também se manifesta na redução da capacidade antioxidante total (CAt), que reflete a defesa global do organismo. Meta-análises indicam que a CAt sistêmica em indivíduos com periodontite crônica é significativamente inferior à de controles saudáveis (1, 2). Essa diminuição é observada também no FCG e na saliva, indicando comprometimento da defesa antioxidante local (6, 7). A avaliação de enzimas antioxidantes específicas, como superóxido dismutase (SOD), catalase (CAT) e glutationa peroxidase (GPx), revela um cenário complexo. Enquanto alguns estudos relatam redução da atividade de SOD e GPx na saliva, outros indicam aumento dessa atividade em tecidos gengivais, possivelmente refletindo uma resposta adaptativa do organismo ao estresse oxidativo (6, 7).

Portanto, restaurar o equilíbrio de oxirredução é fundamental no tratamento da periodontite, uma vez que a doença caracteriza-se por uma condição inflamatória diretamente ligada ao estresse oxidativo (10). A terapia periodontal não cirúrgica (TPNC) demonstrou efeitos positivos, reduzindo marcadores de estresse oxidativo no FCG e diminuindo marcadores pró-inflamatórios (5, 9). Contudo, a consistência e magnitude dessas melhorias variam, evidenciando a necessidade de pesquisas padronizadas para avaliar o impacto das terapias no equilíbrio redox.

Compreender os mecanismos moleculares que conectam o estresse oxidativo à patogênese da periodontite é essencial para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. Pesquisas recentes demonstram que o estresse oxidativo não é apenas uma consequência, mas um fator ativo na progressão da doença, comprometendo a integridade celular e modulando a resposta inflamatória em um ciclo contínuo de dano (3, 4). Um dos principais mecanismos de produção de EROs na periodontite está relacionado à hiperatividade dos neutrófilos, que se tornam a principal fonte dessas moléculas no tecido periodontal. Essa produção excessiva de superóxido causa danos diretos às células e à matriz extracelular, além de amplificar a inflamação, desempenhando papel central na destruição óssea e ligamentar (6).

A interação com fatores de transcrição, como o FOXO1 (Forkhead Box-O1), evidencia a complexidade desses mecanismos. Essa proteína reguladora exerce papel central no controle do equilíbrio oxidativo, na resposta ao estresse e na proteção antioxidante celular. Observa-se que, em processos inflamatórios, especialmente na periodontite avançada, a expressão reduzida de FOXO1 está associada à menor capacidade de ativar as defesas antioxidantes, o que favorece o aumento do dano tecidual (8).

As repercussões da periodontite não se limitam à cavidade oral. O estresse oxidativo desempenha papel central na conexão entre a doença periodontal e a saúde sistêmica. A inflamação crônica, juntamente com a liberação de mediadores inflamatórios e EROs, pode afetar a saúde geral do indivíduo, associando a periodontite severa a aumento da inflamação sistêmica e do estresse oxidativo (11). Estudos reforçam essa associação, indicando que a periodontite pode contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (1, 2). Nesse contexto, a terapia periodontal, ao controlar a infecção local, pode levar à redução significativa dos marcadores inflamatórios sistêmicos, destacando sua importância na modulação da saúde geral (5, 9). Embora os benefícios observados sejam promissores, a eficácia das terapias antioxidantes adjuvantes ainda é incerta e requer mais pesquisas para definição de diretrizes clínicas (7).

A proposta de considerar a periodontite como doença inflamatória de estresse oxidativo sugere que o tratamento deve ir além da remoção da placa bacteriana, incorporando estratégias para restaurar o equilíbrio redox (10). A integração de terapias direcionadas ao estresse oxidativo pode não só melhorar os resultados periodontais, como também reduzir o risco de comorbidades sistêmicas, representando avanço na abordagem integral da saúde do paciente (6, 7).

Em síntese, a análise dos artigos aponta a periodontite como uma doença inflamatória crônica profundamente associada ao estresse oxidativo. Esse desequilíbrio redox, evidenciado por biomarcadores como MDA e 8-OHdG, é parcialmente revertido pela terapia periodontal. Embora haja consenso quanto ao papel central do estresse oxidativo, persistem divergências quanto à sensibilidade dos biomarcadores e à eficácia de terapias adjuvantes, apontando para a necessidade de padronização metodológica e estudos longitudinais. Reconhecer a periodontite como doença de estresse oxidativo reforça a importância de abordagens terapêuticas integradas que visem restaurar o equilíbrio redox, proteger os tecidos periodontais e reduzir os impactos sistêmicos da doença.

 

Referências Bibliográficas

   

1             Liu Z, Liu Y, Song Y, Zhang X, Wang S, Wang ZJDM. Systemic oxidative stress biomarkers in chronic periodontitis: a meta‐analysis. Disease Markers. 2014;2014(1):931083.

2             Mohideen K, Chandrasekaran K, Veeraraghavan H, Faizee SH, Dhungel S, Ghosh SJDm. Meta‐Analysis of Assessment of Total Oxidative Stress and Total Antioxidant Capacity in Patients with Periodontitis. Disease markers. 2023;2023(1):9949047.

3             Zhang Z, Zheng Y, Bian X, Wang M, Chou J, Liu H, et al. Identification of key genes and pathways associated with oxidative stress in periodontitis. Front Cell Dev Biol. 2022;2022(1):9728172.

4             Bullon P, Giampieri F, Bullon B, Battino MJJoPR. The Role of Oxidative Stress in Periodontitis. Journal of Periodontal Research (2025): 1–22.

5             Hendek, M. K., Erdemir, E. O., Kisa, U., & Ozcan, G. (2015). Effect of initial periodontal therapy on oxidative stress markers in gingival crevicular fluid, saliva, and serum in smokers and non‐smokers with chronic periodontitis. Journal of periodontology. 2015; 86(2), 273-282.

6             Wang Y, Andrukhov O & Rausch-Fan, X. Oxidative stress and antioxidant system in periodontitis. Frontiers in physiology. 2017; 8:910.

7             Tóthová Lu, Celec PJFip. Oxidative stress and antioxidants in the diagnosis and therapy of periodontitis. Frontiers in physiology. 2017; 8:1055.

8             Gurbuz ES, Guney Z, Kurgan S, Balci N, Serdar MA, Gunhan MJCOI. Oxidative stress and foxo-1 relationship in stage III periodontitis. Clinical Oral Investigations 2024;28(5):270.

9             Borges Jr., Ivan, Moreira, Emília Addison Machado, Filho, Danilo Wilhem, de Oliveira, Tiago Bittencourt, da Silva, Marcelo Barreto Spirelle, Fröde, Tânia Silvia. Proinflammatory and oxidative stress markers in patients with periodontal disease. Mediators of Inflammation 2007;2007(1):045794.

10          Sczepanik FSC, Grossi ML, Casati M, Goldberg M, Glogauer M, Fine N, et al. Periodontitis is an inflammatory disease of oxidative stress: We should treat it that way. Periodontology 2000. 2020;84(1):45-68.

11          D’Aiuto F, Nibali L, Parkar M, Patel K, Suvan J, Donos N. Oxidative Stress, Systemic Inflammation, and Severe Periodontitis. Journal of Dental Rese

 

 

                                                                                        Orlando Cavezzi junior 

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