A Periodontia atual busca reconstruir tecidos perdidos pela doença periodontal, superando, outrora, abordagens apenas ressectivas. O termo "regeneração periodontal" é usado para descrever a formação de osso, cemento e ligamento periodontal, mas, sob uma análise biológica rigorosa, tal expressão pode refletir mais a intenção clínica do que a realidade celular, gerando confusão conceitual que necessita de esclarecimento(1).
O que determina se uma área lesada será reconstruída por reparação ou por regeneração não é o resultado final pretendido pelo clínico, mas sim a natureza biológica do tipo de tecido envolvido na lesão(2). De acordo com os conceitos fundamentais da patologia, a reparação constitui o mecanismo exclusivo de reconstrução dos tecidos conjuntivos vascularizados, ocorrendo obrigatoriamente por meio da formação de tecido de granulação, enquanto a regeneração é um processo característico de tecidos não vascularizados, como epitélios de revestimento, epitélios glandulares e tecidos neurais periféricos, nos quais a reconstrução se dá por proliferação direta das células remanescentes, isto é, por multiplicação, sem participação do tecido de granulação(2, 3). Considerando que os componentes do periodonto de inserção (osso alveolar, ligamento periodontal e cemento) são tecidos conjuntivos especializados, sua reconstrução após o tratamento ocorre biologicamente por reparação, uma vez que depende de angiogênese e da organização do coágulo em tecido de granulação para a posterior síntese de matriz, diferindo, portanto, do processo regenerativo clássico.
A expressão "regeneração periodontal" consolidou-se na prática clínica como um termo de viés prático, que valoriza evidências de sucesso, como o ganho de nível de inserção clínica (NIC) e o preenchimento ósseo radiográfico, em detrimento da precisão biológica(1, 4-7). Historicamente, Melcher enfatizou a primazia do ligamento periodontal na cicatrização, sugerindo que o recrutamento de suas células progenitoras seria a chave para evitar o epitélio juncional longo, uma forma de reparação que não restaura a arquitetura original(8-10). Experimentos pioneiros com barreiras de exclusão celular (RTG) demonstraram ser possível obter uma "nova inserção conjuntiva", mas esses resultados clínicos podem não corresponder a uma reconstituição histológica perfeita e idêntica ao tecido original. Assim, a terminologia clínica ignora que, embora o resultado final mimetize a anatomia perdida, o processo biológico subjacente, em tecidos vascularizados, é, por definição, reparação tecidual, mediada por fibroblastos e osteoblastos sobre um arcabouço conjuntivo inicial(4, 5, 11, 12).
A discussão se torna ainda mais complexa ao se considerar o uso de biomateriais e substitutos ósseos no tratamento de defeitos intraósseos. Embora esses materiais melhorem os parâmetros clínicos, a evidência histológica em humanos demonstra retenção frequente de partículas residuais do enxerto no tecido neoformado. Enquanto a regeneração dita "espontânea" produziria tecido indistinguível do original, a cura dependente de arcabouço gera uma composição híbrida, com partículas estranhas integradas à matriz óssea por anos. A persistência desse material residual impede a restauração idêntica do estado original, o que se enquadra no conceito de reparação. Assim, o termo "regeneração" é frequentemente empregado de maneira abrangente, negligenciando distinções biológicas fundamentais entre o tecido nativo e aquele reconstruído com auxílio de materiais sintéticos ou xenógenos(4, 6, 11).
No processo de obtenção da cura periodontal, o mecanismo de repopulação celular seletiva desempenha um papel crucial na dinâmica tecidual. Caton e colaboradores demonstraram que, em modelos experimentais, a formação de novo osso precede frequentemente a deposição de novo cemento, sugerindo que as células do compartimento ósseo podem atingir a superfície radicular antes das células do ligamento periodontal. Esse fenômeno pode levar a complicações como anquilose e reabsorção radicular, que representam falhas no processo de cura organizada(6, 8). A biologia celular revela que a cura é uma "corrida" entre diferentes tipos celulares, e o sucesso clínico depende da manipulação desse ambiente para favorecer uma reparação funcional. Novamente, observa-se que o termo regeneração é aplicado a qualquer resultado positivo de preenchimento de defeito, independentemente de como o sinergismo celular foi alcançado biologicamente durante as fases de inflamação e reparo(2, 11).
A manutenção dos resultados clínicos por período superior a dez anos reforça a utilidade das chamadas técnicas "regenerativas", ainda que o termo seja biologicamente impreciso sob o rigor da citologia. O clínico adota essa nomenclatura para comunicar a eficácia de um procedimento que evitou a perda do elemento dental e restaurou sua função(1, 2, 11). No entanto, essa conveniência terminológica pode gerar confusão intelectual, especialmente na leitura crítica de novos materiais que prometem "regeneração", mas que, na prática, apenas facilitam uma reparação mais eficiente e estética. Um embasamento científico sólido exige o reconhecimento de que o osso e o ligamento periodontal, por serem tecidos conjuntivos, se reparam. Uma reparação bem-sucedida devolve função e anatomia sem deixar cicatrizes aparentes, mas o caminho biológico percorrido é distinto da regeneração epitelial(2, 11).
Ao questionarmos se é correta a expressão "regeneração periodontal", a resposta varia conforme o prisma adotado. Sob o viés clínico da Periodontia, o termo está consagrado para diferenciar a formação de novos tecidos da mera cicatrização por epitélio juncional longo. Todavia, sob o rigor da biologia celular e da patologia geral, a expressão é uma interpretação equivocada, pois atribui a tecidos conjuntivos vascularizados um mecanismo de reconstrução (regeneração) que é exclusivo de tecidos epiteliais e neurais(3). Como ressaltado na literatura de base, "osso não se regenera, osso se repara", e o mesmo princípio se aplica aos demais componentes do periodonto de inserção(2, 8, 11). O uso do termo acaba priorizando o significado da "intenção clínica" em vez da "realidade celular", tratando como sinônimos processos que possuem origens e dinâmicas distintas.
Em conclusão, o termo "regeneração periodontal" é consagrado na clínica, mas biologicamente impreciso. A cura após o tratamento periodontal ocorre por reparação nos tecidos conjuntivos (osso, ligamento, cemento) e apenas por regeneração nos epiteliais. Essa distinção não desvaloriza as terapias atuais, mas evita confusões conceituais. Assim, o profissional deve reconhecer que o sucesso clínico reside em guiar uma reparação de alta qualidade, tão eficaz que o resultado final se assemelha a uma regeneração, embora o processo biológico seja o da reparação via tecido de granulação.
Referências
1. Kao RT, Nares S, Reynolds MA. Periodontal regeneration–intrabony defects: a systematic review from the AAP regeneration workshop. Journal of Periodontology. 2015;86:S77-S104.
2. Consolaro A. É REPARAÇÃO OU REGENERAÇÃO? QUAL USAR? Journal of Clinical Dentistry and Research. 2021;18:82-90.
3. Kumar V AA, Fausto N, Mitchell RN. Robbins Patologia Basica. 8. ed. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2008.
4. Chen F-MJ, Yan Periodontal tissue engineering and regeneration: current approaches and expanding opportunities. J Tissue Engineering. 2010;16(2):219-55.
5. Christoph A, Giulio R, Salvatore B, William V. Advanced regenerative technologies for periodontal tissue repair. Journal of Periodontology. 2012;59(1):185-202.
6. Egelberg J. Regeneration and repair of periodontal tissues. Journal of Periodontal Research. 1987;22(3).
7. Rosling B, Nyman S, Lindhe J, Jern B. The healing potential of the periodontal tissues following different techniques of periodontal surgery in plaque‐free dentitions: A 2‐year clinical study. Journal of Clinical Periodontology. 1976;3(4):233-50.
8. Caton J, DeFuria E, Polson A, Nyman S. Periodontal regeneration via selective cell repopulation. Journal of Periodontology 1987;58(8):546-52.
9. McCulloch CA. Tony Melcher's contributions to the regeneration of the periodontium. Journal of Periodontal Research. 1999;78(7):1292-7.
10. Melcher A. On the repair potential of periodontal tissues. Journal of Clinical Periodontology. 1976;47(5):256-60.
11. Pini Prato GP, Di Gianfilippo R. Regeneration or repair? Evaluating foreign material in periodontal healing. J Periodont Res. 2026;61(2):107-110.
12. Nyman S, Lindhe J, Karring T, Rylander H. New attachment following surgical treatment of human periodontal disease. Journal of Clinical Periodontology. 1982;9(4):290-6.
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